Desenvolvimento da linguagem oral

Terapia audio visual para auxiliar o desenvolvimento da linguagem oral

Muitos problemas no desenvolvimento da linguagem, fala e aprendizagem tem sido atribuídos à dificuldade no processamento dos estímulos acústicos, por isso, torna-se importante investigar se as informações acústicas foram passadas, ou não, para a criança durante a vida intra-uterina (Matias, 1999).

Um dos primeiros sistemas a se desenvolver ainda na vida uterina é o sistema auditivo. A partir da vigésima semana de gestação o feto normal já começa a demonstrar reações aos estímulos sonoros, percebidos através da mudança de frequência dos batimentos cardíacos fetais e associados frequentemente ao movimento corporal (Northen e Downs, 1989).

A partir do quarto mês de vida intra-uterina, já há vários sentidos desenvolvidos inclusive a audição, a qual desempenha um papel fundamental e decisivo, uma vez que para que a linguagem falada seja desenvolvida, é necessário que a criança ouça (ressaltamos que a aquisição de linguagem oral ocorre de forma diferenciada em crianças surdas – através dos sistemas tátil e proprioceptivo).

Para que haja aquisição e desenvolvimento normal da linguagem é considerado como pré-requisito a integridade anatomofisiológica do sistema auditivo, a experiência acústica na vida intra-uterina e nos primeiros anos de vida – considerados um período crítico para o desenvolvimento das habilidades auditivas e da linguagem.

Jean Ayres (1988), descreveu a Integração Sensorial da seguinte forma:

Integração Sensorial é o processamento de informações. O cérebro deve selecionar, destacar, inibir, comparar e associar a informação sensorial em padrões flexíveis em constante mudança: em outras palavras, o cérebro deve integrá-las.

Nos estudos das desordens do processamento sensorial de Miller (2006), podemos classificar as desordens como dificuldades na  discriminação dos sinais sensoriais (em relação à detecção ou não do sinal sensorial), na modulação da resposta a estes sinais (hiper ou hiporresposta) ou em transtornos motores de base sensorial (transtornos da postura ou apraxia).

Muitos são os casos que recebemos na clínica de crianças que demonstram a audição perfeita – porém uma resposta intermitente ao sinal auditivo – ou seja, uma hora parecem ouvir perfeitamente e em outros momentos não demonstram nenhuma reação ao serem chamadas pelo nome. Costumamos ouvir esse relato em crianças com autismo e crianças com déficit de atenção.

Mas qual será a causa e o que podemos fazer para aumentar essa atenção auditiva?

Em meus estudos das desordens do processamento sensorial, pude perceber que o momento em que as crianças “deixam” de perceber com maior rapidez o estímulo auditivo – a mãe chamando, um barulho externo ou até mesmo um barulho ao lado da criança, é quando ela está em atividade, ou seja, quando a atenção dela está voltada para algum outro canal sensorial que não o auditivo.

Em minha prática pude perceber que o canal que causa maior distração auditiva é o canal visual. E crianças que buscam estímulos visuais e possuem dificuldade em modular esse sistema com os demais, são crianças que precisam de maior atenção para a aquisição da linguagem.

Quando falamos em desordens de modulação sensorial podemos comparar essa invariabilidade das respostas sensoriais com um vídeo com atraso na transmissão, por exemplo. Quantas vezes estamos assistindo um vídeo e percebemos que a imagem não está em sincronia com o áudio. Em geral, a imagem atrasa e o áudio continua e vice versa.

Crianças com dificuldade de modular e integrar os sistemas visual e auditivo, são crianças que em geral apresentam dificuldades atencionais aos estímulos auditivos – que são mais abstratos e maior atenção aos estímulos visuais – concretos.

E quando a criança está hiperfocada no seu desenho favorito – visualmente, a mãe começa a chamá-lo pelo nome e a resposta parece vir muito tempo depois – em geral quando a mãe encosta no braço da criança ou até mesmo entra na frente da televisão. Isso acontece porque o sistema visual está recebendo a informação muito mais depressa do que o sistema auditivo. E até a criança conseguir unir as duas informações, geralmente nós adultos já até mudamos de comando ou atividade.

É aquela criança que em sala de aula só vai realizar a atividade proposta algum tempo depois que a turma já até mesmo encerrou a brincadeira.
Ou aquela criança que os pais fazem todas as estratégias para engajar em uma brincadeira e vão mudando de atividade até ela se interessar em algo proposto – mas com isso não dão o tempo necessário para que a criança integre as informações pertinentes para engajar na atividade proposta.

Quando existe uma dificuldade na integração e modulação dos sistemas visual e auditivo, a criança possui grandes dificuldades em localização visuo-espacial. Essa dificuldade se apresenta justamente no momento em que a criança é chamada pelo nome e sua atenção visual está muito mais ativada do que a auditiva. E calibrar o olhar para o ponto no espaço juntamente com o sinal sonoro que estão emitindo se torna um grande desafio.

Uma estratégia terapêutica para facilitar a integração dos sistemas visual e auditivo é o uso do headphone em conjunto com o iPad ou televisão.
Com o feedback auditivo direto e a pressão tátil causada pelo headphone, fica muito mais fácil para a criança integrar o que ela está vendo com o que ela está ouvindo.

E em aquisição de linguagem é importante que a atenção visual esteja integrada com a auditiva, levando em consideração que a linguagem é adquirida em contexto social e a capacidade de imitação e de atenção compartilhada são fundamentais para o bom desenvolvimento da linguagem expressiva verbal e até mesmo não verbal.

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