Linguagem e Autismo: Como vencer a Ecolalia.

Do ponto de vista interacionista, a linguagem é construida em contexto social. No autismo, as habilidades sociais estão prejudicadas, e com isso existe um déficit em aquisição de linguagem. A linguagem é uma capacidade de nível superior que possibilita o ser humano à organizar suas sensações, emoções e pensamentos.

Quando uma criança começa seu processo de aquisição de linguagem é comum passar pelo período de fala ecolálica, ou seja, repetir a fala do outro sem um significado ou sentido. Isto nos mostra um ponto muito positivo sob o olhar de aquisição de linguagem, pois observamos que a criança está atenta ao meio social e compreendeu o uso social das palavras, porém ainda não se apropriou simbolicamente do significado das palavras

Criança engajada em brincadeira com a mãe

Criança engajada em brincadeira com a mãe

e também ainda não estabilizou o senso de self – ou seja, de si mesma e de seus desejos.

No autismo, o período de ecolalia pode se estender por um tempo maior do que no desenvolvimento típico, pois o prejuízo social na realidade é reflexo de um prejuízo na sua auto-percepção, muitas vezes devido aos transtornos sensoriais, ou seja, de integração dos sentidos, alterando sua percepção de si mesmo e do mundo.

 

Para compreender melhor como ajudar nossas crianças autistas à vencer a ecolalia, vamos falar um pouco sobre o processo da linguagem, como ele acontece no autismo e dicas do que fazer e não fazer com uma criança ecolálica.

O que é linguagem?

A linguagem é a habilidade do ser humano em se comunicar através de símbolos, sejam eles verbais ou não-verbais, exteriorizados ou não, a fim de transmitir idéias, sensações, informações, entre outros.

Os processos da linguagem englobam a compreensão da mensagem e a sua expressão, e são influenciados pelo fator cognitivo.

A linguagem é constituída por três dimensões ou componentes: a forma, o conteúdo e o uso.

A forma está relacionada aos aspectos fonológicos (organização e produção dos sons da língua) e sintáticos (construção da estrutura frasal, utilização das regras gramaticais e dos princípios gramaticais).

O conteúdo refere-se ao aspecto semântico, que por sua vez engloba o conteúdo, o significado que é atribuído, as categorias semânticas e a dimensão numérica do vocabulário.

E o uso, isto é, o aspecto pragmático que abrange as funções comunicativas.

As crianças com autismo têm alterações na aquisição e desenvolvimento da linguagem, mais ou menos grave, entretanto este fato não pressupõe que as outras questões neurodesenvolvimentais também estejam. Pelo contrário, muitas vezes o déficit de linguagem é acompanhado por uma cognição elevada, por exemplo, musical, espacial ou aritmética.

Em geral, no autismo, o uso funcional da linguagem, ou seja, a pragmática, é sempre a principal característica afetada, o que não descarta a alteração nos outros componentes da linguagem.

O funcionamento da linguagem pragmática não está somente relacionado ao uso da linguagem, mas também do gesto no contexto, definidos como os atos de fala, que são áreas afetadas no autismo.

Aquisição da Linguagem em Contexto Social: Como vencer a Ecolalia.

A aquisição da linguagem, assim como o uso funcional da mesma, é influenciada pela cognição e pelas habilidades sociais.

No autismo, mesmo em crianças consideradas verbais, há um grande prejuízo na compreensão dos significados das palavras, de acordo com os contextos específicos, havendo a presença de características como ecolalia e inversão pronominal. Tal aspecto diz respeito à profunda alteração na capacidade simbólica das crianças autistas, um marcado prejuízo na compreensão dos significados dos termos, em geral, em contextos específicos, sobretudo na compreensão de significados que remetem à experiência afetiva.

Em alguns casos, o uso da ecolalia pode servir como função comunicativa, dependendo do contexto, para nomear ou pedir algo, ou mesmo para protesto e afirmação.

O uso funcional da linguagem é o segundo aspecto mais esperado pelos pais depois da tão esperada “fala” em si.

Muitas crianças autistas falam, porém não conseguem fazer um uso funcional e contextualizado desta fala.

Em casos de crianças que possuem fala ecolálica, costumo observar uma grande falha à nível semântico – além de questões relacionadas à capacidade simbólica e em casos mais graves em pragmática, ou seja, a criança compreende que socialmente ela precisa da “fala” e essa “fala” possui inclusive melodia – prosódia, porém, em nível linguístico, não existe um símbolo próprio armazenado para expressar seus sentimentos. É aí que a criança se apropria da fala de outra pessoa de forma imediata – quando ela repete exatamente o que o outro diz de forma automática, ou então de forma tardia – o que também muitos vezes caracterizamos como script, quando a criança recorta a fala de um desenho favorito e cola exatamente em interação contextualizada ou não, lembrando que muitas vezes para nós a fala não possui significado e contexto, mas para a criança faz todo o sentido por algum detalhe no desenho que ela associou no momento em que ela reproduziu.

A interação e brincadeiras onde podemos instrumentalizar a criança com vocabulários usados em contexto – brincadeiras de faz de conta e imitação de cenas vivenciadas, sempre serão um excelente caminho para ajudar à criança na apropriação de sua fala. Modelar para a criança como a linguagem em interação deveria ser, ajudará ela no armazenamento de imagens mentais associadas à símbolos (palavras). Lembrando sempre que a memória afetiva positiva será um facilitador no processo de aprendizagem.

Uma dica que sempre dou para trabalhar com crianças ecolálicas é o estranhamento. Trazer o pensamento crítico em relação ao que a criança está dizendo de forma muitas vezes automática.

Por exemplo:

A criança quer subir no escorrega, e então você pergunta: “- Você quer ir no escorrega?” A criança ecolálica responde: “- Escorrega!”, nesse caso você está apenas alimentando uma fala ecolálica.

Uma forma de trazer o pensamento crítico é usar duas opções de resposta e não respostas fechadas, por exemplo: Você sabe que a criança que ir no escorrega, mas você pergunta: “- Você quer ir no escorrega ou no balanço?” uma criança ecolálica vai repetir a última palavra, até por questões de memória de trabalho, e então você direciona ela para o balanço conforme ela respondeu e diz: “- Ahhh, você quer ir no balanço”, quando a criança reagir de uma forma insatisfeita, você dá o modelo novamente: “- Você quer ir no escorrega ou no balanço?” e repete a ação algumas vezes, podendo inclusive ter uma terceira pessoa na interação onde você faz a mesma pergunta para que a criança conecte visualmente a idéia de uma pessoa indo ao balanço e/ou no escorrega, fazendo escolhas e cada palavra referindo à uma opção.

O que devemos evitar em Ecolalia?

Trabalhar palavras fora de contexto social (com uso de cartões, e até mesmo filmes e livros onde apenas uma realidade é apresentada) , insistir em dar o modelo de resposta para a criança de forma pronta sem trazer consciência e pensamento crítico e uso excessivo de perguntas de categorias fechadas onde a criança tenha a tendência de recortar a resposta pronta da pergunta que você acabou de fazer, são erros muito comuns e ao mesmo tempo fatais para crianças com ecolalia, pois dessa forma você estará alimentando a repetição e o uso descontextualizado das palavras – fazendo com que a fala seja mecânica e pouco natural e criativa.

“A comunicação efetiva, dependente do continuo ajuste e modificação do discurso, somente pode ser conseguida através de um processo de analise da interação , em outras palavras, de um processo analítico/reflexivo.” (Prizant, 1983)

Partindo de uma linha de aquisição de linguagem pragmática, onde a linguagem se desenvolve em ambiente social e co-construído, ressaltamos a importância de vivências onde a criança seja estimulada e receba os modelos de linguagem adequados para cada ocasião – de forma dinâmica, lúdica e contextualizada, claro.

Seguindo a liderança do seu filho durante a brincadeira, ajudando-o a expandir seus interesses e desafiando-o à experimentar coisas novas dentro do seu tempo e perfil individualizado, certamente você estará contribuindo, e muito, para o desenvolvimento de uma linguagem pragmática, ou seja, de uso funcional e contextualizado.

 

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3 Comentário(s)

  • by Alessandra Nunes Postado 14 de outubro de 2016 07:40

    Ótimo texto! !!!

  • by Cida Postado 15 de outubro de 2016 23:34

    Gosteiuito das postagens,tenho uma menina de 7 anos e ajudou muito,pq,e afase atual dela , e verbal porém com ecolalia

  • by Goreth Postado 17 de outubro de 2016 00:30

    Boas dicas, me ajudarão bastante!

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